Recebi em casa, por estes dias, um postal de Natal de uma pessoa amiga, professora reformada, de Coimbra, onde expressava os seus votos de Boas Festas para a família. Trata-se de uma senhora, que foi há muitos anos, professora da minha esposa, e, desde essa altura, cultivou o hábito de nos escrever, nesta época, valha-nos, por isso, o Natal, um postal, dando conta das novidades ao longo do ano. É uma senhora de nobre personalidade, de carácter e bons princípios, o que, infelizmente é raro nos dias de hoje, de espírito aberto, muito dinâmica e, acima de tudo, sempre disposta a dar a mão a quem mais precisa. Uma das suas melhores qualidades, que me referem, é o seu sentido de justiça.
Ao longo das linhas que, este ano, nos dedicou, e que tanto gosto tenho em ler, a determinada altura, escreveu o seguinte…” Eu faço mil e uma coisas e, entre elas, voluntariado. Pobres, há, mas os mais pobres são-no por deficiência de mentalidade, que os impede de gerir o pouco que têm, mas que, por vezes, chegava bem. Imaginem que há pobres que vão de táxi buscar os bens do banco alimentar…
Há, sobretudo, gente que sofre de solidão. Alguns nem nos ouvem, nem precisam que falemos. Querem apenas, que as oiçamos. O verbo ouvir é o grande verbo do voluntariado.
Este Natal cabe-me fazer feliz o João, de 4 anos, a Juliana, de 4 meses e a mana de 12 anos, com uma mãe de 32 anos, com um cancro no estômago e vivendo apenas de um salário de pedreiro, do pai. Porém, do que mais sofre esta mulher, é da clausura das suas paredes, por não poder trabalhar fora de casa. E psicologicamente está a ficar cada vez mais deprimida.
Abrindo os olhos em redor, vejo que há mais pessoas assim. Oxalá vão encontrando auxílio.”
Fiquei emocionado, por saber que alguém próximo, com filhos e netos está disposto a acolher na sua casa uma família carenciada. Um grande bem aja a esta Mãe, Professora e Avó, de quem os seus mais que tudo deverão orgulhar-se, acima de tudo desta pessoa.
Estas palavras, provocaram, em mim, um arrepio geral, fizeram pensar-me no que tenho de melhor na vida, esposa e dois filhos maravilhosos, a quem frequentemente lhes digo que são os melhores do mundo. Parei, por instantes para olhar em volta, e reflectir sobre o mundo egoísta em que vivemos, onde, imagine-se, até os que mais precisam, se dão ao irreflectido “luxo” de ir de táxi buscar os alimentos, que alguns contribuíram, à custa do seu esforço.
Por outro lado, o som forte e real destas mesmas palavras, fizeram recuar-me à infância, onde o Natal era celebrado em e com a família. Comemorava o nascimento do Menino Jesus, à meia-noite ia à Missa do Galo e só abria as prendas na manhã do dia 25 de Dezembro. Hoje, festeja-se, não se comemora!, o Pai Natal, os enfeites luminosos e musicais, entre outros adornos, vendidos nas lojas dos Chineses, esse povo que vem de tão longe, com crenças e hábitos tão diferentes dos nossos e, mesmo assim, nos tenta com mil e um artefactos vindos da Ásia, a preços imbatíveis e que só não revelam o nome das muitas pequenas mãos que os manufacturaram. Não sabemos em que condições foram fabricados e nem que retribuição tiveram os seus primeiros manuseadores. É o tempo do Noddy e do Bob, o construtor. A Leopoldina, também, que, através das campanhas publicitárias e outros eventos, lá nos vão dizendo e convencendo que parte do dinheiro recebido, pela compra dos seus produtos, reverterá a favor de instituições para crianças. Espero bem que sim, pois não é assunto para brincadeiras e as crianças doentes e mais desfavorecidas, em nada têm culpa da sua condição.
Seja como for, dei comigo a pensar que as crianças de hoje, sim, as nossas crianças, entendem que, nesta quadra natalícia, se festeja o aniversário do Velho de barbas brancas, fato vermelho e que se faz anunciar com um Oh, Oh, Oh! Não duvido mesmo nada, que a sua maioria saiba o nome das renas que puxam o trenó do Pai Natal, que se passeia pelos céus na noite de Natal, mundo fora. Já a mesma certeza não tenho sobre o nome dos três Reis Magos, nem tão pouco quais as suas origens. Muito poucos saberão quais os presentes que ofertaram ao Menino e em que data se assinala esse acontecimento.
Como era bom voltar a festejar o nascimento do Menino, nas palhas deitado, ladeado pela vaca, pelo burro e pelos seus pais, em vez de nos dedicarmos ao consumismo desmedido e ao supérfluo, onde a fasquia da bitola é dada pelo número de prendas, grande parte delas, são aliás, desnecessárias e não trazem qualquer valor acrescentado ao seu final destinatário. No caso das crianças, uma vez mais, os brinquedos oferecidos são apenas, o reflexo do pouco tempo que lhes é dedicado, e nem sempre são construtivos ou educativos, apela-se apenas ao sentido da aparência exterior, não ao conteúdo, nem à mensagem inerente.
Da minha parte, prometo que vou reforçar aos meus, qual o verdadeiro significado desta quadra e vou trocar a tradicional árvore de natal, com os seus lindos e deslumbrantes enfeites, pelo musgo, com o seu aroma fresco, e pelas figuras do presépio, onde se retrata a verdadeira história desse tempo mágico …
Desejo a todos um Santo e Feliz Natal e um Ano Novo, de 2007 em tudo melhor do que o anterior.
PS. Regresso em Janeiro, depois de umas reconfortantes férias.
Façam o favor de ser felizes!
Um abraço,