O choque tecnológico ajuda os portugueses
O estado da economia portuguesa não se pode actualmente dissociar da situação económica do resto do mundo. E sublinho actualmente porque há dois anos estavamos para sair de crise e o resto da Europa estava a crescer, sendo que a nossa vizinha Espanha continuava a ser um caso exemplar. A forma adoptada para ‘corrigir’ os excessos do passado já foram aqui debatidos e de facto o resultado está à vista. As figas do Primeiro Ministro não foram suficientes e quando, segundo nos dizem, estavamos em condições de sair da crise continuamos na mesma mas agora bem pior.
Quando os fundos europeus estão quase a terminar regressa a questão que se colocou no fim de ciclo da expansão ultramarina. Para onde foram os milhões que recebemos? Entraram na economia e mais ou menos rapidamente tornaram-se rendimento disponível na mão dos consumidores. Foram gastos ou investidos? Demasiados milhões foram gastos e assim esgotaram rapidamente o seu efeito multiplicador de riqueza. Durante mais de uma década a massa monetária da nossa economia cresceu sem que esse crescimento fosse acompanhado por um ciclo inflacionista e houve dinheiro nos bolsos dos portugueses como não havia há muito. Em pouco tempo o acesso a bens de consumo como automóveis, habitação e respectivo recheio, etc, elevou os indíces de qualidade de vida a níveis inéditos. Ao mesmo tempo o endividamento subiu extraordinariamente e encontrando-se agora no seu máximo de sempre deixa de poder aumentar o que limita o consumo e reforça o efeito desacelarador da economia.
E o que é ficou de tudo isso? Os automóveis foram importados e o respectivo valor seguiu para os países de origem, o recheio das habitações que em percentagem significativa foi igualmente importado e seguiu o mesmo caminho. Ficou apenas uma poupança de valor negativo.
É claro que existem alguns sectores onde se cria valor acrescentado e que assim retem riqueza na economia, mas no todo do nosso tecido económico esta balança de valor acrescentado, chamemos-lhe assim, é deficitária. Falta a tal formação de quadros, de empresas e de pessoas criativas que potenciem a atracção de receitas do exterior. O cenário da educação, chave para a inversão de ciclo na tal balança de valor acrescentado deficitária, também não é animador. O Turismo contraria este efeito mas não tem dimensão suficiente.
As obras de fachada realizadas pelas autraquias por esse país fora enquadram-se na despesa sem retorno financeiro, sendo que única contrapartida que têm é a satisfação que geram na sua inauguração e os dividendos eleitorais a ela associados.
A profunda crise de todo o modelo estado-cêntrico que resultou do 25 de Abril é inegável. António Barreto, sociólogo conceituado, alerta para os riscos de implosão social associada à mentira e à ocultação da realidade pela classe política. Assim já não é só Medina Carreira a deixar os políticos indispostos.