As fronteiras da ética
Os ‘pacemakers’ terão sido um dos passos mais significativos para transformar o ser humano num organismo híbrido de carne e máquina. Quando a máquina pára todo o ser pára. Também os transplantes de órgãos permitem um prolongamento da vida para além do que seria possível sem eles. Há alguns séculos atrás foram as vacinas a interromper a arbitrariedade da biologia. Em todos estes capítulos da história da medicina levaram a que algumas vozes as questionassem. Os bioconservadores – encabeçados por religiosos – apelidaram estas técnicas de ‘antinaturais’ e até ‘imorais’.
Numa época em que os conhecimentos sobre Genética têm aumentado como nunca, as possiblidades que abrem são assombrosas. O lento processo de selecção natural está em vias de ser complementado por um processo mais célere de selecção provocada. Alguns trabalhos nesta área tentam criar células resistentes ao HIV e ao cancro, outros desenvolvem ‘suplementos’ genéticos para serem administrados a cada embrião e que os tornarão mais inteligentes e de vida mais longa. Nesta área a questão que se coloca não é se terão sucesso, mas apenas quando é que isto estará disponível para todos.
Um grupo de cientistas que se auto-intitulam ‘transhumanistas’ tem como objectivo criar uma espécie de super-heróis. Max More um dos seus mentores escreveu a seguinte carta à Mãe Natureza: “Estamos sinceramente gratos pelo que fez por nós. Não duvidamos que tenha sido o melhor que podia. Contudo, com todo o respeito, há que dizer que, em muitos aspectos, fez um trabalho bastante fraco em matéria de constituição humana. Fez-nos vulneráveis à doença. Impôs-nos o envelhecimento e morte, precisamente quando estamos em fase de começar a atingir a sabedoria. Decidimos que é chegada a hora de emendar a constituição humana.”
Os bioconservadores por seu lado defendem a manutenção da cadeia genética humana na sua forma actual. Mas Darwin retirou o lugar a Platão e ensinou-nos que não existe nenhum ‘nós’ fixo, pois estamos em permanente evolução e assim continuaremos. Desde que a raça humana abandonou o corno de África que está sempre em evolução. Em que momento desse caminho se pode dizer que já se evoluiu demasiado? O evolução é imparável e como tal não é viável defender a estagnação da espécie. Se descobrissemos que os nossos Pais nos poderiam fazer mais inteligentes e com uma vida mais longa não ficaríamos furiosos? O que devemos fazer perante as gerações futuras?
Alguns pensadores lembram que existe o risco de separar a espécie em dois ramos, uma classe dominante e aperfeiçoada e o povo ‘natural’, tratado como cidadãos de segunda. Mas se hoje o mundo Ocidental dispõe de vacinas e inibidores de protease, ao contrário do que acontece em África, faz sentido banir esses tratamentos aqui ou lutar para que cheguem a eles também?
Como é que as futuras gerações olharão para a nossa? Não serão os actuais bio-reaccionários comparados à populaça que destruiu os telescópio de Galileu?
Baseado num artigo do The Independent, via Courrier Internacional